Uniões de facto, segundos casamentos, casais interculturais… Hoje em dia, a ideia tradicional de família deve confrontar-se com novos enquadramentos
Antigamente, a família era "vertical", no sentido que, frequentemente compreendia pais, filhos e avós, abarcando várias gerações. Hoje em dia, ao contrário, vemos à nossa volta cada vez mais famílias "alargadas", ou seja, famílias criadas a partir de segundos casamentos, ou uniões sucessivas a um primeiro casamento. Frequentemente, têm outros filhos, que de um modo ou de outro, devem aprender a conviver com os mais velhos; ou acontece que os filhos já crescidos se encontrem na situação de terem de se relacionar com um ou mais irmãos com os quais têm em comum só o pai ou a mãe.
Para alargar ainda mais este quadro, há também os factores interculturais, presentes tanto em casamentos "mistos", como nos que se caracterizam por adopções de crianças, provenientes de países estrangeiros. Em ambos os casos, a tarefa que os pais têm de enfrentar é bastante complicada, pois devem cultivar nos seus filhos um sentimento de estima, orgulho, aceitação e identidade familiar num mundo em que, apesar de tudo, ainda mantém muitos preconceitos em relação às minorias.
Paralelamente à fórmula tradicional, as famílias de hoje tendem a formar-se, em diferentes situações pela forma, configuração e dimensões, dando vida a um work in progress, sob muitos aspectos ainda por experimentar, em que as regras tradicionais da pedagogia devem ser reescritas, ou pelo menos, repensadas e renovadas.
Segundo Anna Oliverio Ferraris, professora ordinária de Psicologia do desenvolvimento da Università La Sapienza de Roma e autora do livro "O terceiro pai", o fenómeno da família alargada «é um fenómeno complexo que exige um empenho considerável por parte do casal». O importante é partir com o pé certo. O diálogo nunca deve faltar, assim como garantir a cada criança ou jovem o seu próprio espaço, ou seja, a sua características próprias de identidade e de intimidade. Também é necessária clareza na divisão dos papéis. As regras devem ser ditadas e feitas respeitar pelo pai ou pela mãe natural, enquanto que o "terceiro pai" não se deve colocar em relação ao filho do seu/sua companheiro/a, como um pai ou uma mãe, mas sim como um tio, um amigo, com o qual partilhar uma qualquer paixão em comum. No início, o casal deve concentrar-se muito mais nos filhos do que em si mesmo. Deve evidenciar os aspectos positivos da nova união, fazendo com que os filhos compreendam que mesmo nas famílias tradicionais se podem encontrar dificuldades. E não só. O objectivo é conseguir criar um clima sereno, aberto ao confronto e ao diálogo, assim como à compreensão das necessidades dos outros.
Em suma, dar vida a uma família não tradicional pode revelar-se uma tarefa complicada; mas apesar disso, vale a pena tentar, porque é uma experiência que pode dar aos protagonistas um sentimento de grande realização. |