Hoje em dia, não é raro que, na escola, o número dos filhos de pais separados ou divorciados seja quase o mesmo dos filhos de casais "regulares"
Certamente, ao longo dos anos, mudou a atitude da sociedade em relação a estes jovens: se noutros tempos, a separação dos pais era vista como um acontecimento traumático que podia justificar excessos e mau comportamento, actualmente a maior difusão desta condição, apesar de requerer sempre grande delicadeza e sensibilidade, é vista não só com maior "resignação", mas também com maior serenidade.
Os pais, em geral, sabem bem quais são os comportamentos que devem ser evitados (usar os filhos contra o ex-companheiro, compensar os próprios complexos de culpa, satisfazendo todos os caprichos dos filhos) como também os que devem ser cultivados (por exemplo, a consciência de que o fim da relação os torna mais visíveis como pessoas do que como pais, os humaniza aos olhos do filho. O qual, no entanto, poderá ainda necessitar de uma figura de referência "ideal", com a qual se possa confrontar. Um paradoxo que deve ser gerido pelo adulto e, em nenhum caso, pelo próprio filho!). A realidade, todavia, é muito mais complexa do que as páginas de um manual de comportamento e os erros estão na ordem do dia.
Inevitavelmente, a separação dos pais representa, para os filhos, uma forte aceleração exercida no seu crescimento: exige-se deles, mais ou menos explicitamente, que sejam fortes, responsáveis, mais “adultos” do que a própria idade permite. Este esforço e a fatiga de o enfrentar deveriam ser reconhecidos pelos pais, os quais, frequentemente, pedem para si mesmos compreensão e apoio e, até mesmo, uma completa absolvição. Sem se darem conta que ao filho não cabe este papel e que, se por necessidade o assume, poderá reelaborá-lo positivamente e "reabsorvê-lo" somente perante pais capazes de, por sua vez, aceitarem também a desilusão e a raiva do próprio filho, assim como a sensação de ter sido traído, além da sensação de medo do abandono.
É verdade que, mesmo com toda a boa vontade deste mundo, quando se vive o final de uma longa relação e de um projecto de vida, nos sentimos de rastos. Muitos pais de hoje que, frequentemente, enfrentaram a criação de uma família, com a convicção de não repetir os erros dos próprios pais, são severos perfeccionistas. Desiludir os próprios filhos é inaceitável. Fazem de tudo para compensar todas as lacunas que temem poder criar-se na vida das suas "eternas crianças", interrogando-as e protegendo-as, para além de todos os limites razoáveis. Esquecendo-se de que parte da própria evolução pessoal foi estimulada pela procura no exterior do que não encontravam no seio da família, que os limites dos próprios pais foram, para eles, pontos de partida e que, uma vez adultos, souberam reconhecer a grandeza do amor recebido, aceitando o facto de que o próprio pai e a própria mãe, apesar de todos os erros, fizeram sempre o melhor que podiam fazer. |