Mensagens profundas sobre as nossas emoções, desejos e medos. Uma ocasião para conhecer a nossa força, as nossas fraquezas e a nossa capacidade de compreensão
A gravidez altera o ritmo do sono, modifica os horários e a profundidade, preparando a mãe para os futuros horários, quando será necessário nutrir o bebé também durante a noite, tornando-a mais vigilante e com um sono mais leve, de modo a estar pronta para intervir, assim que ouvir o choro ou um simples chamamento do bebé. Além disso, as transformações que se verificam no corpo da mulher durante estes nove meses reflectem-se no seu inconsciente, como num espelho e vêm à superfície através dos sonhos, numa linguagem simbólica, tão eficaz quanto misteriosa.
Não são raros os casos de mulheres que após a concepção (mas ainda antes de saberem racionalmente que estão à espera de bebé) sonham com gravidezes, mulheres grávidas ou crianças que saúdam ou se apresentam. As mulheres, na maior parte dos casos, sabem o que está a acontecer dentro do seu corpo e interpretam o sonho de modo exacto.
Este tema é fascinante e faz parte do património oral da cultura feminina e, mais recentemente, também da psicologia. Se fizéssemos o “levantamento” dos sonhos recorrentes nas mulheres grávidas, certamente, encontraríamos a sensação de queda no vazio e os sonhos aquáticos. O primeiro tipo de sonho, mesmo sendo assustador e provocar um acordar repentino, traz consigo o valor positivo da libertação. É como se algo fosse accionado na psique feminina afirmando ”Está na hora! Está a acontecer agora!”. Os sonhos aquáticos (nadar, ver o mar e, até mesmo, afogar) estão ligados ao valor simbólico da vida intra-uterina e ao saco amniótico que contém um líquido cuja composição é muito semelhante à da água do mar. Sonhar as ondas, por exemplo, com o seu ritmo, parece que tem relação com as contracções.
Um outro sonho recorrente que se manifesta no fim da gravidez é o parto. Sonhar partos difíceis, bebés com problemas é muito comum e não se trata de modo algum de sonhos premonitores. São apenas a ansiedade e o temor que se transferem para o nível da consciência, encontrando um caminho subterrâneo para se exprimirem e libertarem. Mesmo os sonhos que manifestam uma fortíssima agressividade devem ser considerados naturais e até mesmo “funcionais”. Sonhar que está fechada numa cave perseguida por um cão feroz não é, certamente, uma experiência agradável. Mas o que o inconsciente quer comunicar é que a agressividade e o instinto de sobrevivência, capaz de ultrapassar qualquer obstáculo, são úteis no momento do parto. Em todas as culturas do mundo, o nascimento traz consigo alegria e dor. Quando chega a altura certa, o bebé quer sair e tenta abrir caminho com a força; a mãe, a um certo ponto, quer fazer com que o bebé, que lhe provoca dor, saia do seu corpo, empurrando-o com todas as forças. Desta separação “violenta” nasce uma nova vida.
Esta leitura do parto levou alguns psicólogos a interpretarem estes sonhos, com um conteúdo de agressividade tão forte, como a expressão de uma força e raiva criativa, cuja energia será necessária à mulher para enfrentar o parto e dar à luz o seu bebé. Acordar de sobressalto de um pesadelo do género pode ser assustador: é preciso aceitar o sonho como uma mensagem e reconhecer como legítimas as próprias emoções e a própria ansiedade. Nesse caso, a mensagem atinge a sua destinatária, deixando-a mais aliviada e serena. |